A imaginação criadora
Citação do livro Yôga e Consciência, de Antôno Renato Henriques.
Li este livro há mais de três anos, ao mesmo tempo que conheci e comecei a ler o Yôga Sútra de Pátáñjali.
Me chamou a atenção principalmente o trecho que compartilharei a seguir.
Não foi uma, nem duas vezes, que algumas das frases do trecho abaixo me vieram á memória enquanto pensava a repeito da riqueza da tradição cultural milenar que é o Yôga.
Espero que goste!
Todos nós sabemos que o homem é o que é graças a sua grande imaginação. O que alguém é capaz de imaginar, outro alguém é capaz de realizar. E o ser humano privou sempre por imaginar além de sua presente circunstância. Toda a transcendência criativa humana se deu devido à imaginação. Imaginar não é propriamente criar o inexistente, é transformar o real, transmutar o velho em novo. Sempre o velho apareceu na História associado à razão e a estruturas fixas, quer mentais ou sociais, enquanto que o novo apareceu sempre vinculado à ousadia da mudança, à loucura de imaginar uma possibilidade outra, uma estrutura ou perspectiva diferente. E, muitas vezes, por medo da loucura afogamos nossa imaginação no respeito às tradições e aos valores estabelecidos. É claro que não podemos jogar o passado pela janela, assim como não podemos arrancar nossas raízes e continuarmos crescendo.
Mas a preservação do velho não quer dizer deixar de buscar o alto e não ouvir o que de novo nos traz o vento. Obviamente necessitamos de espíritos criativos, capazes de imaginarem saídas outras para os problemas crônicos de nossa civilização ocidental, capazes de repensarem as ideologias hoje existentes, recriando-as em função de um novo ideal de humanidade. É claro que carecemos em nossas vidas particulares de mais imaginação e criatividade, ainda mais neste século da cultura de massa, do trabalho especializado e rotineiro, onde estamos proibidos de inventar. Carecemos de inventar o novo mesmo nas nossas filosofias, já tão desgastadas em seus pontos de vista, que não conseguiram fazer-nos melhores ou fazer melhor o mundo em que vivemos. Porém, quando tentamos extrair o novo do velho, no caso a bem velha filosofia do Yôga, deparamos com um problema deveras difícil: como conciliar uma consciência contemplativa, que apenas testemunha, sendo, portanto, passiva, com uma capacidade ativa de criar e imaginar?A criação artística é fruto de um desejo de expressão que implica necessáriamente um trabalho do ser que cria, trabalho este emocional, físico e mental. Estas três dimensões do ser humano pertencem à Prakriti (matéria) e não ao Púrusha (espírito)*. Contudo, o ato de criar é um novo modo de o homem experimentar a Prakriti e também uma maneira nova de a Prakriti relacionar-se ao Púrusha. A arte em geral é a expressão de um mistério subjacente à exterioridade do mundo. E tal realidade oculta, dificilmente expressa, surge da “luz” do Púrusha refletida na percepção das coisas.
Quando um pintor, um músico ou um poeta “cantam” os encantos da natureza ou simplesmente criam puras abstrações, o fazem a partir de uma especial percepção (que nós chamamos de artística, e que em verdade é uma percepção direta, mais uma intuição) do informe oculto em todas as formas.
Ou seja, o artista é um yôgin irrealizado, é aquele que teve o vislumbre da verdade e da sublime beleza e captou-as na aparência do mundo, como quem descobre o cosmos estrelado refletido nas águas de um poço. O artista equivale a um pássaro que tenta contar aos animais terrestres o que é o voar e como se vê a terra do alto.
Durante o vôo o ego do artista afrouxa seus elos com o mundo, ele consegue contemplá-lo como aquela consciência que apenas vê, desde o seu Púsusha.E pela visão do Púrusha o artista se une à terra, não mais como um seu produto, mas como aquele que a domina desde o seu âmago, pelo poder natural de transformá-la pelo seu olhar.
Aos olhos do Púrusha o mundo se transfigura. O artista equivale ao discípulo, é aquele que vislumbra e volta, atinge mas não se estabelece. E ao retornar, se torna aquele que fala: ao mundo, do céu; ao velho, do novo; ao tempo, do eterno; ao homem de deus.Quando um artista cria, na verdade recria da matéria inerte uma nova dinâmica, da letra morta o espírito vivo de um outro sentido. A criação artística contém em seu bojo a dialética da realidade aparente, em que se fusionam razão e imaginação, sonho e vigília. Só que aqui não é o sonho que perdura no estado desperto com seu clima de alma, seja alegre, triste ou de desconforto. É o contrário, o artista é mais que aquele que desperta mas não de todo, é aquele que acorda mas volta a dormir, e passa a incluir em seus sonhos certas visões do despertar, não de todo consumado. Daí que, se o artista é um yôgin irrealizado, o yôgin pode ser o artista que se superou.
O artista é, de certa forma, aquele que percebeu o palco, e que, mesmo estando em cima dele, consegue existir acima e além do espetáculo. E mais, sendo aquele que “intuiu” a realidade do espetáculo, consegue improvisar em cena, recriando o enredo, transformando os “climas”, mudando um drama em comédia, uma tragédia em opereta, até que alguém baixe o pano e os atores desvistam seus personagens.
A arte é um ato de ser e de expressão. O ser apenas é e a expressão não se explica, ela penetra pelos nossos sentidos sem pedir licença. A arte é um ato de amor e paixão. O amor e a paixão não podem ser totalmente entendidos, eles não são racionais. Mas arte também é um ato psíquico, mental; supõe, pois, idéias. Porém, não é um ato de puro intelecto, porque o coração a contamina. Tampouco a arte conceitua, suas idéias são imagens. E cada imagem é um mundo e uma emoção. Ou seja a arte é um horizonte de possibilidades, ressonâncias e interpretações. E o fruto de todo o ato artístico de amor deve ser comunicado ao mundo, deve se lhe dar a luz, pois a arte é, em nossos profundos abismos, a possibilidade de um cume.
O mais importante em relação à imaginação criadora, justificando estas linhas, é que Pátáñjali considera a imaginação um vritti, portanto algo negativo em si, passível de ser suprimido para que ocorra o samádhi. O yôgin realizado seria, em consequência de tal assertiva, um homem sem imaginação alguma, e mais, seria alguém que não pensa. Poderia tal ser existir? Esta seria uma conclusão apressada, teríamos antes de analisar o pensar e o imaginar a que Pátáñjali se refere. Como veremos mais adiante, quando estudarmos o problema do conhecimento, o pensar que inexiste no êxtase é o que implica a dicotomia entre sujeito e objeto. Mas concebe o Yôga a permanência da consciência mesmo em uma mente sem objeto. Na verdade uma mente sem objeto não pensa e, portanto, não existe, se concebemos mente como uma atividade pensante. Porém permanece um sujeito transcendental, não mais o eu-empírico com seus conteúdos psíquicos introjetados no exterior, mas um ser consciente que puramente vê.
Em relação à imaginação temos uma concepçao diferente. Como já explicamos a imagem é criada pela consciência, não é um mero reflexo ou cópia do objeto, equivale ao ato de recriar o percebido. A imagem pode ter referenciais concretos, mas em si mesma ela é um nada. Porém, podemos transmitir este nada, comunicá-lo como arte, ou seja, ele “funciona”, atua como algo. Isto nos leva à constatação de que a imaginação é algo que, apesar de não concreto, atua sobre o concreto através da criação artística, captável pelos sentidos, porque materializada em obra. E apesar de não concreta só há imaginação a partir de um mundo percebido e/ou lembrado. Diremos nós que a imaginação é como que o reverso da percepção, pois a primeira só existe onde existe a segunda. E imaginar é recriar percepções dando-lhes um outro sentido. Pátáñjali diz que nos estados avançados de Yôga, desaparecem juntas a percepção e a imaginação, permanecendo o sentido. Isto significa que, apesar de mais subjetiva que a percepção, a imaginação ainda é um “reflexo”, apesar de distante e distinto, das coisas concretas, portanto é Prakriti. Significa também que a imaginação criadora é uma ação do sujeito empírico e não do Eu transcendental.
Apesar disto, tomada no nível de consciência humana comum, a imaginação é um avanço, porque equivale a uma ida do exterior para o interior. Resta desde o interior ascendermos para uma realidade suprapessoal, onde criar não é mais um ato subjetivo, mas a expressão de uma vontade, e uma consciência cósmica.
O Púrusha não criou a Prakriti, assim como Íshwara não criou o mundo, mas não por impotência ou carência de criatividade. O Púrusha do Yôga pode criar, mais do que o próprio artista, já que os siddhis (poderes paranormais) que o Yôga desenvolve nele ampliam suas capacidades, como o poder de manipular a matéria e materializar idéias. Porém o yôgin evita manipular a matéria poe uma submissão consciente e voluntária à natureza .
Devido ao desapego e a todos os avanços de seu ser, ele vive sem carências, satisfeito com um mínimo que a natureza jamais lhe nega, porque se subordina à sua vontade cósmica.
Em outras palavras, o que o yôgin cria não é públicamente exposto, porque em verdade sua principal obra é sua vida, seu ser e a transformação que opera no ser dos seus discípulos.
2 comentários
Lindo. Muito SwáSthya, muito Júlia!
Mto massa , vai fazer mto sucesso !!!
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