Tudo Sobre o Método DeRose em Curitiba
Imagens aleatórias... atualize para ver mais!

Algo que se aproxima daquilo que entendo por educação…

Detail from Gail Sherman Corbett's Bronze Door to City Hall (Springfield, MA)
Creative Commons License takomabibelot

Antes de me tornar Instrutora de Yôga, iniciei o curso de Filosofia com o objetivo de me graduar nessa área.

Sempre gostei de textos que tratassem das questões peculiarmente humanas.

Sempre gostei das longas reflexões que só nós, bichos-homens, podemos fazer a respeito do Universo e de nós mesmos.

Ainda curso esta faculdade, mas agora sem qualquer objetivo profissional.

Hoje, continuo minha graduação apenas pelo prazer de permanecer em contato com o supra-sumo da Cultura Ocidental. E veja que existe muita coisa interessante, muitas idéias empoeiradas nestes livros antigos que ultrapassam em séculos a compreensão atual da maioria dos viventes destes dias…

Dentre os autores que li, mesmo antes de entrar na universidade, considero alguns subjetivamente mais importantes.

Justamente aqueles que, por afinidades de concepção de mundo, desde o primeiro contato, puderam me influenciar. Aqueles que através de suas idéias, tão metodicamente expostas, puderam fazer parte de quem sou hoje.

Sempre temos aqueles autores preferidos que fizeram, a partir de suas exposições, com que algo mudasse dentro de nós.

Aqueles que, nas conversas solitárias que temos às vezes conosco mesmos, em pensamentos, chamamos de colegas ou até amigos, desde a primeira leitura.

Um destes que considero especiais para mim é o francês Rousseau.

Citarei aqui um trecho de um livro deste autor, que por muito tempo ficou anotado em um de meus cadernos.

Este escrito clareou muito a minha visão a respeito do que até hoje consideramos ser Educação.

Quando era adolescente, li estas palavras e passei a pensar muito sobre o que realmente gostaria de saber, sobre o que gostaria de aprender e conhecer.

Percebi que, durante anos de estudo, não pude escolher o conteúdo de meu próprio aprendizado.

Que, durante muito tempo, todo o conteúdo passado a mim teve apenas a função de uma preparação para  interesses exteriores. E nem sempre compatíveis com minhas curiosidades do momento em que vivia.

Percebi que sempre, desde pequena, fui preparada para uma sociedade ou para um mercado.

Jamais para ser eu mesma.

Jamais para que eu descobrisse quais seriam as minhas reais potencialidades e para saber o que fazer para desenvolvê-las.

Enfim,  não que não se possa ensinar para a sociedade ou para o mercado. Não é esse o fato.

O fato é que em geral só se ensina isso.

E que essa educação para o exterior se dá em detrimento da transmissão de experiências que façam sentido para a realização do indivíduo.

O fato é que não é este tipo de educação que torna um ser humano realizado. Ela não permite a exploração do ser humano em suas particularidades.

Este tipo de educação inclusive poda a criatividade e as potencialidades individuais.

Normalmente consideramos gênio pessoas que nada mais fizeram do que se desenvolver independentemente da educação vigente em seu tempo (e não que isso não seja um grande mérito).

Importa que esta educação não tem o objetivo de tornar o aluno um homem feliz, ou completo… um homem desenvolvido plenamente em suas capacidades. Ela apenas torna os homens úteis.

Muitas vezes, apenas se ensina a servir, a ter um papel na sociedade, sem jamais levar em conta que aquele que está ali para aprender é muito mais do que isso.

Rousseau leva em consideração que seu aluno é, acima de tudo, um ser humano em formação.

Alguém que, independentemente de seuas funções na sociedade, tem seus próprios anseios, seu próprio tempo.

Que o aprendizado principal de alguém deveria sempre partir das questões que se põem de dentro para fora. Que o aprendizado seja motivado pelo anseio de saber do aluno e jamais de conteúdos genéricos impostos pelo professor.

Segue a citação:

Arrastados pela natureza e pelos homens a caminhos contrários, forçados a nos dividir entre esses diversos impulsos, seguimos uma composição que não nos leva nem a um nem a outro objetivo. Assim, combalidos e errantes durante toda nossa vida, terminamo-la sem termos podido entrar em contato com nós mesmos, e sem termos sido bons nem para nós nem para os outros.

(…)

Na ordem natural, sendo os homens todos iguais, sua vocação comum é a condição de homem, e quem quer que seja bem educado para tal condição não pode preencher mal as outras relacionadas com ela. Pouco me importa que destinem o meu aluno à espada, à igreja ou à barra. Antes da vocação dos pais a natureza o chama para a vida humana. Viver é o ofício que quero ensinar-lhe. Ao sair das minhas mãos, concordo que não será nem magistrado, nem soldado, nem padre; será Homem em primeiro lugar; tudo o que um Homem deve ser, ele será capaz de ser, e se preciso, tão bem quanto qualquer outro; e, ainda que a fortuna o faça mudar de lugar, ele estará sempre no seu.

O livro em que li estes trechos chama-se Emílio, ou da educação.

Emílio é o aluno imaginário o qual durante todo o livro Rousseau acompanha. Ele ensina a Emílo apenas o que acha necessário, motivado sempre pelas questões que vão surgindo através da vivência do próprio aluno da realidade que o cerca.

É muito interessante acompanhar o percurso de Emílio, desde seu nascimento até seu casamento.

O papel do preceptor é ao mesmo tempo ativo e passivo. Ele não interfere na ordem dos fatos e experiências do aluno, mas busca em cada situação vivida o contexto para aplicar a transmissão de um conhecimento.

Acho interessante exatamente isto, o respeito do professor pelo tempo interno do aluno e a sensibilidade de contextualizar o conhecimento, linkando-o sempre à realidade vivida por aquele que aprende.

Espero que tenha gostado também.

Leia também:

  • Um pouco mais sobre Educação
  • Proposta
  • Paradigmas culturais sobre educação
  • Sensibilidade e o conceito de espaço vital
  • Texto de homenagem aos 50 anos de magistério do Educador DeRose
  • Tirar um tempo só para você: Interessa????
  • A antiga questão do tempo…
  • Pújá e ação efetiva
  • Pújá – Uma Prática Universal
  • Dica de Alimentação
  • 2 comentários

    1 O Emílio, de Rousseau: uma visão inovadora da educação | Livros e afins { 15/10/2008 às 2:47 am }

    [...] Rodrigues publicou em seu blog um trecho de O Emílio, de Rousseau, em um belo artigo que toca nesse ponto: Arrastados pela natureza e pelos homens a caminhos contrários, forçados a [...]

    2 Um pouco mais sobre Educação | Tudo sobre Yôga em Curitiba { 26/11/2008 às 1:16 am }

    [...] Crítica interessante e próxima ao que já tratei no post: Algo que se aproxima daquilo que entendo por educação. [...]

    Deixe um comentário