Categoria — Prática
Regra de 1 segundo por dia
No post: Tapas: esforce-se! Mas sem forçar…, mencionei a regra de 1 segundo por dia.
Expliquei que é uma regra aplicada aos ásanas, e, na ocasião do post citado abordei-a em um outro contexto.
Aqui apresentarei esta regra, no seu contexto original.
Ásanas são as técnicas corporais do Yôga, sua definição formal: toda a posição firme e agradável.
Esta definição, do procedimento orgânico do Yôga, encontra-se no Yôga Sútra, de Pátañjali, capítulo II, 46.
Para a prática de ásanas, no SwáSthya Yôga, existem codificadas algumas regras gerais de execução.
Uma dessas regras é a regra geral de segurança, com certeza você perceberá que eu também usei esta regra como referência no post sobre tapas.
Esta regra prescreve a seguinte atitude:
Esforce-se, mas sem forçar. Qualquer desconforto, dor, aceleração cardíaca ou transpiração em excesso são avisos do nosso organismo para que sejamos mais moderados. Estes ásanas não devem cansar e sim recarregar nossas baterias.
Existe codificada também a regra geral de permanência nos ásanas, ela se encontra na página 281 do Tratado de Yôga (DeRose, Nobel, 2008).
No contexto da regra geral de permanência é que se encontra a regra de um segundo por dia.
Vejamos:
Regra de Um Segundo por Dia
Comece permanecendo apenas um segundo no primeiro dia, dois segundos no segundo dia, três segundos no terceiro, quatro no quarto e assim sucessivamente. Dessa forma, quando completar um ano você estará permanecendo cerca de 365 segundos.
A norma acima baseia-se no ditado que nos ensina um princípio muito simples. Se levantarmos todos os dias um bezerro, dentro de algum tempo estaremos conseguindo levantar um touro (pois o bezerro vai crescendo gradualmente e, com ele, a nossa força vai-se adaptando ao seu aumento de peso).
Não obstante tal procedimento só funciona e só é seguro se o praticante for disciplinado e sistemático, não falhando um dia sequer. Caso precise interromper um ou mais dias, deve regredir em sua permanência o numero de segundos equivalente ao número de dias durante os quais ficou parado.
Esta regra pode ser aplicada juntamente com a de permanência para iniciantes desde a contagem inicial até a de uns 60 segundos aproximadamente. E pode ser acoplada à regra de permanência para veteranos a partir desse limite (ver na pág 281 do Tratado de Yôga).
É claro que você deve privilegiar o bom-senso, e, como sempre, jamais cometer exageros. Por isso mesmo, vai observar que consegir o progresso diário de um segundo será muito mais fácil em um ásana como o paschimôttana* e muito mais difícil em um como o mayúra**. Não tem importância. Você pode estacionar por algumas semanas ou até meses sem adicionar o outro segundo em um determinado ásana mais difícil, e enquanto isso, seguir ampliando a permanência noutros mais fáceis.
De qualquer forma, a regra de um segundo por dia constitui, por si só, um dispositivo de segurança que em certa medida refreia o ímpeto de progredir aos saltos. Afinal, havemos de convir que adicionar apenas um segundo por dia é bastante metabolizável para uma pessoa que esteja bem de saúde, no trato da maior parte dos ásanas. Não é com espasmos de dedicação que você vai conseguir uma boa performance e sim com regularidade, disciplina e lucidez.
…
*paschimôtanásana
**mayúrásana
4/10/2008 1 comentário
Para mentalizar de manhã, ao levantar

credit: alicepopkorn
Há uma grande diferença entre ser praticante de Yôga e ser um yôgin.
Só fazer a prática (sádhana), mesmo que correta e regularmente, não torna o sádhaka um yôgin.
Um yôgin compromete-se, envolve-se de forma tal com a filosofia que aplica-a a todo momento, em todas as coisas que faz, ou seja, faz do Yôga sua razão de ser.
Só é um yôgin aquele que penetra fundo, de corpo e alma, na filosofia de vida que o Yôga preconiza. Aquele que na sua vida particular segue um programa de envolvimento e identificação total, a tempo integral. (DeRose, Faça Yôga Antes que Você Precise, M. Claret, 491)
Essa aplicação prática e integral dos conhecimentos, no entanto, não deve fazer com que o praticante torne-se isolado, estranho ou alienado de tudo e todos.
Ao incorporar os hábitos indicados por esta Cultura, o sádhaka deve sempre observar uma mudança gradual e assimilável, jamais brusca e forçada.
Até o ponto em que tenha assimilado tantas coisas de forma natural em seu cotidiano, que pratique mesmo sem lembrar, o tempo todo, que o está fazendo.
De encontro com estes objetivos foram organizadas, por DeRose, no mesmo livro que citamos acima algumas práticas para o dia-a-dia.
Estas práticas podem ser incorporadas pelos interessados em fazer do Yôga algo mais presente em suas rotinas.
Podem ser observadas gradativamente, uma por vez, na ordem escolhida pelo praticante, durante o tempo que este quiser levar para a assimilação de cada uma delas. Só prosseguindo, no objetivo de trabalhar a próxima escolhida quando a anterior, por exemplo, já tenha se tornado hábito.
Além destas práticas, existe um capítulo neste livro chamado: Programação para o sucesso.
Esta programação também é completamente aplicável a seu dia-a-dia.
A programação terá efeito se praticada constantemente, se aplicada, com constância, todos os dias.
Como ao chegar em casa, hoje de manhã, fui reler a programação para o início do dia e senti vontadade de compartilhar a prática, aí está, para você, o trecho para mentalizar todas as manhãs:
Para mentalizar de manhã, ao levantar:
Recebo este novo dia em minha vida com a disposição de ser uma pessoa melhor e mais feliz .
Quero me reeducar gradualmente para servir melhor as pessoas com quem me relacionar neste dia.
Vou aprender mais coisas, realizar algo de bom, regozijar-me com as coisas belas e simples como uma brisa, um raio de sol, um pássaro, uma flor.
Quero ser mais tolerante hoje do que ontem, e amanhã mais do que hoje. Desejo compartilhar as boas coisas, bons pensamentos.
Copie, imprima, cole em algum lugar que você veja sempre ao acordar.
Se você viaja muito cole em sua necessaire, e inevitavelmente, ao fazer sua higiene matinal você lembrará de praticar.
Comece assim que puder!
Espero que com isso seus dias sejam cada vez melhores!
1/10/2008 2 comentários
Tapas: esforce-se! Mas sem forçar…
Tapas é um dos preceitos éticos do Yôga, um dos yamas e niyamas, sobre os quais já falei anteriormente.
É importante ser destacado, pois é o preceito que, de certa forma, dá base de sustentação para todos os demais.
Tapas é a observância da auto-superação. É um esforço constante sobre si mesmo. Trabalhado para que se torne um hábito.
Deve ser treinado no sentido mais abrangente possível, como um aprimoramento realizado a todo o tempo, em todas as áreas que se mostrarem passíveis de serem melhoradas.
De acordo com o Tratado de Yôga:
- A oitava norma ética do Yôga é tapas, auto-superação.
- O yôgin deve observar constante esforço sobre si mesmo em todos os momentos.
- Esse esforço de auto-superação consiste numa atenção constante no sentido de fazer-se melhor a cada dia e aplica-se a todas as circunstâncias.
- O cultivo da humildade e o da polidez constituem demonstração de tapas.
- Manter a disciplina da prática diária de Yôga é uma manifestação desta norma. Preservar-se de uma alimentação incompatível com o Yôga faz parte do tapas.
- Conter o impulso de expressar comentários maldosos sobre terceiros também é compreendido como correta interpretação desta observância.
- A seriedade de não mesclar com o Yôga sistemas, artes ou filosofias que o conhecimento do seu Mestre desaconselhar, é tapas.
- A austeridades de manter fidelidade e lealdade ao seu Mestre constitui a mais nobre expressão de tapas.
- Tapas é, ainda, a disciplina que respalda o cumprimento das demais normas éticas.
Preceito Moderador:
A observância de tapas não deve induzir ao fanatismo nem à repressão e, muito menos, a qualquer tipo de mortificação.
(Tratado de Yôga, DeRose, Nobel, 1ªed, pg. 801)
A frase que usei no título: esforce-se, mas sem forçar, é na realidade uma regra geral do método, utilizada na execução das técnicas corporais.
No entanto, achei por bem utilizá-la de forma mais abrangente, já que tem perfeita afinidade com a vivência de tapas regrada pelo seu preceito moderador.
Leia mais uma vez:
A observância de tapas não deve induzir ao fanatismo nem à repressão e, muito menos, a qualquer tipo de mortificação.
Seja em qual for o sentido do seu esforço, jamais se agrida, jamais se machuque.
Seja a superação de ordem física, emocional ou mental, não force o progresso.
O SwáSthya Yôga tem como raiz comportamental o Tantra.
Isso quer dizer que o tipo de Yôga que praticamos valoriza a desrepressão e o prazer.
A atitude de machucar-se para conseguir evolução chocar-se-ia com os fundamentos desta filosofia.
Para obter sucesso ao aplicar a vivência de tapas comece com coisas simples.
No treinamento de ásanas, por exemplo: utilize a regra de 1 segundo por dia, mas faça o treinamento todos os dias.
A superação não será o 1 segundo a mais e sim a disciplina de fazer todos os dias e apenas mais um segundo, mesmo podendo mais…
Em kriyá, no caso do nauli, uma única contração a mais por prática, mas em todas as práticas uma a mais.
Sem dizer a aplicação de tapas na observação de simples comportamentos, com o objetivo de modificá-los: habituando-se por exemplo a sorrir imediatamente ao acordar.
Você estará gerando um hábito positivo que irá influenciar os pensamentos que surgirem a seguir… simples assim, mas com constância.
A sensação de progredir, sem falhar, em uma coisa simples que seja, irá motivar o progresso, querendo sempre mais.
Esse sucesso irá permitir vivências um pouco mais desafiadoras.
E, estas, sendo também bem sucedidas, possibilitarão vivências mais e mais desafiadoras.
Tendo sucesso, em uma etapa por vez , progressivamente, inevitavelmente sentirá que será capaz de atingir vivências mais relevantes de comportamento.
No entanto, tapas não será feito pelos resultados das ações que gera, mas pelo simples reforço do caráter, pela auto-superação em si.
Uma vivência bem sucedida após a outra, sem qualquer tipo de agressão já motivará a incorporação de tapas como hábito, pelo prazer de se desenvolver apenas.
E porque isso é bom… porque dá prazer…
27/9/2008 2 comentários
Pújá – Uma Prática Universal
Dentre os inúmeros aspectos possíveis de serem trabalhados em uma prática de Yôga existe um que me agrada especialmente.
O nome desta técnica que considero especial é pújá.
Pújá é o que chamamos na prática de retribuição ética de energia.
Basicamente, é a atitude de agradecer antes de receber.
Por definição:
Pújá é um comportamento universal de gratidão, reverência e lealdade que manifesta-se através de pensamentos, palavras, gestos e obras. (Santos, S, A força da Gratidão (Pújá), Nobel)
Este agradecimento prévio encontra-se presente não só no Yôga, mas em outras atividades, principalmente aquelas vindas do oriente como é o caso, por exemplo, de algumas artes marciais.
No Aikido, de raízes japonesas, por exemplo, existem as reverências prévias, desta forma:
Na entrada do dojo: Ao entrar ou sair da sala ou área de prática, você para, junta os pés e faz uma reverência em direção ao local de prática.
Isso pode ser entendido como uma prece ao dojo onde você irá praticar bem e com energia, mas também, mais mundanamente falando, como uma questão de bom senso.
Ao fazer uma parada antes de entrar na área de prática o praticante atento impede que qualquer desavisado o atinja na cabeça por algum objeto afiado.
Reverência ao Shomen: no início e fim de cada aula dirigida ao ponto mais alto da sala, ou em direção a uma fotografia ou texto.
Momento em que o aluno pode refletir sobre a história de sua arte expressando gratidão ao fundador e mestres anteriores.
A reverência ao Shomem também serve para lembrar onde ele fica, assim o praticante saberá como se mover no dojo.
Reverência ao Sensei: reverência formal ao instrutor, que deve ser feita cuidadosamente e com completa atenção.
É a chance de demonstrar gratidão pela paciência e pela habilidade do Sensei.
Demonstra o desejo de aprender e o pedido para receber suas instruções.
Há ainda a reverência ao parceiro.
No caso do Yôga o Pújá é feito nesta ordem:
- Ao local da prática
- Ao instrutor
- Ao Mestre vivo mais antigo da linhagem
- Ao primeiro dos yôgins.
Habitualmente, durante a prática, o pújá é feito através de mentalizações.
O interessante é que aquele que realmente pratica o pújá, predispõe-se à aprendizagem e amplia as fronteiras de sua experiência para assimilar a essência do Yôga, ainda que nada lhe seja ensinado.
De acordo, mais uma vez, com o Mestre Sérgio Santos:
É preciso desenvolver o siddhi do aprendizado, pois a evolução interior depende muito mais do receptor do que do transmissor.
(…)
Pújá também significa identificar-se, sintonizar-se com o Mestre. Isso permite a germinação daquilo que já se encontra no aprendiz. Diz a máxima: todo discípulo leal é um Mestre em potencial. Portanto, o conhecimento é uma fonte inesgotável, diretamente proporcional à receptividade e à gratidão do discípulo.
Referência sobre Aikido: Hikari Dojo-RJ
21/9/2008 4 comentários

