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Categoria — Relação mestre e discípulo

Paradigmas culturais sobre educação

Na Índia, os detentores de algum conhecimento: professores, mestres, sábios, ou seja, aqueles que tem algo tem algo a ensinar, são considerados de forma muito diferente daquela que vemos hoje no Ocidente.

Aqui, a situação dos professores e mestres é muito triste, aqui não se valoriza o fazer realizado por estes; basta ver as condições em que estas pessoas precisam trabalhar e os míseros salários a que são subordinados.

Não se valoriza muito também a reflexão e nem aqueles que a fazem.

Pense, de imediato, quanto filósofos atuais você conhece? Certamente muito poucos, pois eles quase não existem. E estes que existem são muito pouco conhecidos.

Hoje não há status algum em refletir, em utilizar o tempo para aprender mais sobre o próprio Humano.

O gosto pelo saber e pelo desenvolvimento interior do ser humano quase não se encontra em parte alguma.

Há sim, por outro lado um culto à informação e àquele que consegue assimilar uma grande quantidade de dados.

Uma pessoa culta hoje é sinônimo de uma pessoa que mais parece um computador ou uma enciclopédia do que um ser humano.

Esqueceu-se que o culto é aquele que tem a capacidade de cultivar seu próprio espírito e para tanto que está em constante observação de si mesmo – é refinado nesse sentido.

Culto, cultivado é alguém que trata de si mesmo com arte, faz de seu próprio ser objeto de estudo, ou, que não é rude para tratar com sua existência, mas erudito (que etimologicamente significa: não rude).

Gosta-se hoje de aprender tudo pronto, de respostas fechadas, de um conhecimento que vem de fora, do que “dizem que…”, “provaram que…”, quem disse, de onde veio esse conhecimento?

Este conhecimento não traz consigo nada de real e trata somente de um amontoado de palavras, mas é o que está em voga e faz sucesso hoje.

Fala-se como se a vida fosse também assim algo pronto e determinado, como se sua beleza não fosse justamente a capacidade de criação, de invenção de cada qual por si mesmo…

(Talvez o problema seja que isso exige um pouco mais de esforço e reflexão, e não temos tempo para isso, não temos tempo para viver… estamos mais preocupados em dar nome às coisas, catalogar substâncias e até mesmo as emoções)

Não se valorizam as pessoas plenas de vivências e que trazem estampada em seus rostos a felicidade de terem uma história de vida plena de realizações, experiências e muito para ensinar, que sabem muito não sobre informações e dados, mas da vida, esta mesma “que passa enquanto fazemos planos”, enquanto queremos classificá-la e compreendê-la, ou  mesmo por falta de informação e oportunidade muitos passam mal e mal sobrevivendo…

Há por trás disso toda uma visão do que é ensinar e aprender que em nada se aproxima do que estamos tratando aqui. No entanto, como ilustração oposta a da tradição hindu e bem presente para nós e que é aquela em que a criança birrenta e mal-educada ao ser alertada por algum motivo por seu professor volta-se para este dizendo “… eu pago seu salário, então posso fazer o que bem entender”.

Não há respeito nessa relação, não há amor, é portanto infrutífera e danosa para ambos os lados, mas necessária porque faz parte da visão de mundo vigente, e por esse motivo mantida como certa.

Há de um lado alguém ensinando fórmulas prontas, por um motivo que nada tem a ver com sua realização (na maioria das vezes não passa de uma questão econômica, de sobrevivência e não de vocação, ideal e amor) e de outro alguém obrigado a ouvir, porque é o que se deve fazer, porque é o que todos fazem e que quando interessa quer tirar o máximo do professor, pois está pagando então este tem de servi-lo…

Ambos perdem energia, pois um complica ao máximo a vida do outro, um quer tirar o máximo do outro, há uma total dissonância e divergência de interesses.

Voltando ao assunto central deste capítulo, depois dessa explanação talvez seja mais fácil compreender como o pújá além de uma norma formal é muito mais que isso, uma expressão sincera de amor.

Imagine o mesmo garoto que desrespeito seu professor agora em uma outra situação: vendo em seu preceptor alguém cuja vida, cujas atitudes, cujo brilho no olhar motiva-o a querer tornar-se melhor.

Veja o garoto imaginando-se como um espelho de seu professor querendo ser como ele, querendo realmente aprender o que for que este transmitir, melhor querendo a presença deste a seu lado. Admirando-o, honrando-o e respeitando-o desde o momento que entra em sala de aula e dispondo-se a aprender. O aluno aqui não quer sugar o conhecimento mas dispõe-se a aprender da melhor forma o que for ensinado, pois confia.

Pújá, entre outras coisas, para nós do SwáSthya Yôga, que é de linha naturalista e tantrika, significa retribuição de energia ou força interior, honra, reverência, adoração ou oferenda.

Antes de qualquer coisa, faz parte da etiqueta hindu agradecer ao Mestre antes de receber os ensinamentos e a atenção dispendida.

O pújá é uma das partes do Ashtánga Sádhana (prática em oito partes, característica principal do SwáSthya Yôga ortodoxo) e consiste no estabelecimento de uma sintonia entre o discípulo e o mestre, logo no início da prática. (Na prática utilizamos pújá mental, manásika pújá; existem outros tipos, como oferendas de frutas, incensos, tecidos e dinheiro, quase não utilizados no Ocidente).

Isso é feito para que, estabelecida esta conexão, realize-se energeticamente o fenômeno dos vasos comunicantes onde: aquele que tem mais, deixa fluir para aquele que tem menos.

“Quem tem mais força e conhecimento é o Mestre. Contudo pela Lei Natural de ação e reação, se o Discípulo tomar uma atitude vampiresca e parasitária de querer receber, gera um campo de força de reação, que bloqueia tudo. Por outro lado, se o Discípulo educado trata de somente enviar uma oferenda de boas vibrações e mentalizações a seu Mestre, gera-se um campo de força favorável à identificação entre ambos, conseqüentemente, ocorre um jorro de retorno àquele que fez a emissão original.”

Mas, atenção: não se faz pújá com segundas intenções, para receber o benefício do retorno de energia. Isso seria sequela de uma educação religiosa deturpada, em que a pessoa quase sempre reza para pedir algo, ao invés de manifestar o comportamento mais digno que seria orar para oferecer algo.”

6/12/2009   Sem comentários

Mas que sentimento afinal embasa a relação entre mestre e discípulo

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“Amai, amai, todo o resto não é nada.”

La Fontaine (Os Amores de Psique e de Cupido)

Vejamos como se constituem os laços entre o mestre e o discípulo.

Estudemos com atenção por quais sentimentos essa relação se fundamenta, para posteriormente tirarmos as consequências disso.

Utilizarei como ilustração um capítulo do livro Eu Me Lembro…

Escolhi esse trecho porque poeticamente nos transporta fazendo-nos compreender o tema abordado não apenas intelectualmente, mas envolvendo-nos de todo o coração.

O Velho Sábio

Certa manhã, fui tirar leite de nossa búfala, que pastava solta perto das margens do rio. Caminhando pelo campo com os pés descalços na relva molhada pelo orvalho da noite, tão absorvido estava que passei pelo animal e segui em frente. Pouco adiante, encontrei um velho sábio, sentado olhando para as águas que seguiam montanha abaixo. Cumprimentei-o e perguntei o que estava observando. O ancião me disse que estava observando seus pensamentos. Sentei ao seu lado e, como uma criança, sem nada questionar comecei a fazer o mesmo. Passaram-se várias horas e lá estávamos os dois, lado a lado, sem dizer palavra. Porém, entendendo-nos perfeitamente bem.

Até que, em dado momento, o ancião virou-se para mim e começou a falar.

- O que você observou?

- Meus pensamentos.

- Gostou?

- Sim.

- De que natureza eram?

- De todos os tipos. Pensei nas águas, obedientes, que seguem fazendo as ondas no mesmo lugar, apesar de serem sempre outras. Depois, pensei na nossa vida, que também é assim. Somo sempre outras e outras pessoas a nascer, crescer, trabalhar, casar… mas seguimos fazendo as mesmas coisas sem que ninguém nos obrigue a isso. Daí pensei nas nossas ovelhas, cabras e vacas, que também seguem fazendo as mesas coisas desde que nascem, até que morrem. E seus descendentes continuam fazendo as mesmas coisas. Qual o sentido de tudo isso?

- Você se fez essa pergunta?

- Fiz.

- E qual foi a resposta?

- Não obtive resposta, pois meu pensamento seguiu os pássaros e mudou continuamente. Mas gostei da experiência.

- Então volte amanhã e vamos contemplar o rio juntos outra vez.

Assim o fiz. Durante muito tempo retornei e sentei-me ao lado do ancião. Era uma relação de amor. Desde a primeira vez que o vi, senti um carinho arrebatador por aquele mestre. Olhava-o com admiração gratuita, pois ainda não o conhecia suficientemente bem. Não sabia o universo de sapiência que ele tinha para me transmitir. Era simplesmente amor, desinteressado, a primeira vista.

Quase sempre ficávamos calados por muito tempo. Geralmente, no final, ele fazia algumas perguntas. Depois de uns quantos meses, notei que suas perguntas era o que me permitia tomar consciência de quão profundo havia ido na viagem interior.

Vê-se claramente nesta passagem a identificação sincera do discípulo e a naturalidade com que se estabelece do discípulo em direção ao mestre uma admiração, uma vontade de ser como ele.

É realmente como no caso de uma criança que isso se dá, puramente, sem preconceitos, aceitando a ignorância que se mostra no contato com essa outra pessoa.

Reconhece-se que, diante de si há alguém dotado de um saber digno de atenção que se pretende conquistar.

É por meio da consciência desse profundo saber e, no fim das contas, por respeito sincero que o discípulo não questiona. Ele espera, confia.

Pode-se dizer que esta relação é completamente livre. E que é livre porque se funda completamente em amor. Amor do discípulo que se reconhece no mestre e o ama desinteressadamente e, do mestre que, por amor, aceita o discípulo sincero para guiá-lo. Apresenta-se aqui uma relação sem mediação, direta, pura, que revela a ambos na contemplação do agora.

“L’amour est la seule passion qui ne souffre mi passe ni avenir”

“O amor é a única paixão que não admite nem passado nem futuro”

Não há uma obrigação a priori constituída para ambos, ditada, por exemplo por um estado, por uma religião, por um dever moral ou costume…

Nenhum outro homem ditou ou estabeleceu que essa relação deveria existir.

Ela nasceu apenas daqueles dois, como uma amizade, não porque deveria acontecer por algum motivo, por algo vindo de fora, mas simplesmente porque podia acontecer. E porque ambos, mestre e discípulo, movidos por sua própria vontade assim quiseram.

Esta é uma relação que não envolve servidão de nenhuma parte, mas uma parceria fundada puramente no amor e na liberdade. Esta parceria pode aparecer bem descrita da seguinte forma.

Amar não é olhar-se um ao outro, é olhar juntos na mesma direção.

Saint-Exupéry.

Não há aqui uma relação de dependência, mas uma consonância entre ambos e a decisão de seguir juntos, em uma única direção.

30/11/2009   2 comentários

Desamador, de Fabrício Carpinejar

Não sou capaz de amar por piedade. Amar é estar no mesmo nível, com a mesma altura dos ombros, o tremor de balbuciar e logo beijar para não esquecer o que o corpo pede. Não é rebaixar ou cumprir um favor. Amar não é uma compensação.

Amar não dá poder, é o despoder. Ensina a generosidade, a vontade de se diminuir para que o amor aumente. Amar é ceder o gosto, a vida, o futuro. É oferecer a metade da gaveta, da cama, da luz, do banho, da mesa, da folha. É oferecer o que ainda nem se chegou a conhecer.

Leia na íntegra em: Fabrício Carpinejar

6/4/2009   Sem comentários

Preceitos aos Instrutores de Yôga

São dez os preceitos.

Indico os primeiros aqui. Os outros você pode ler no Blog do DeRose.

  • Só ensines aquilo que dominares bem.
  • Não hesites em confessar ignorância sobre o que desconheceres. Sábio é aquele que conhece seus limites e tolo, o que quer ter resposta para tudo.
  • Determina-te a superar-te a cada dia, para aprender o que não souberes e crescer como pessoa humana.
  • Procura dosar teu ensinamento, transmitindo a cada pupilo apenas aquilo que ele puder digerir, pois a mesma luz que ilumina os olhos é a que pode cegá-los se for excessiva.
  • Como a semente do carvalho tem uma árvore dentro de si, cada discípulo é um Mestre em potencial. Ao transmitir o ensinamento, lembra-te de ensinar sobre como perpetuar a mensagem; e faz como o carvalho que firma suas raízes e espalha seus ramos.

31/12/2008   Sem comentários

Nyása: importância da proximidade com o mestre

Ainda que sejamos praticantes de Yôga de uma linhagem naturalista e entendamos o conceito de mestre de uma forma bem pé no chão, tem-se muito apreço na nossa cultura por essa relação entre mestre e discípulo.

Dentro da cultura do SwáSthya Yôga preza-se muito pelo contato direto como mestre, seja em aulas, cursos ou eventos.

A partir dessa proximidade é que o sádhaka (praticante) desenvolve-se mais.

Entenda como isso ocorre lendo este trecho do livro Tratado de Yôga, de DeRose, que fala sobre isso:

Será mesmo importante a proximidade física já que o Yôga é fundamentalmente subjetivo e domina tão espetacularmente as dimensões paranormais? Sim, pois ocorre um fenômeno denominado nyása, uma espécie de osmose, no qual, o discípulo que reúna as qualidades indispensáveis, assimila parte do conhecimento e o poder do seu Mestre através do simples convívio. Para ele, o Mestre é um catalisador vivo da força e da sabedoria que já estavam presentes no íntimo do próprio discípulo.

25/10/2008   1 comentário

Como entendemos, no SwáSthya Yôga, o conceito de Mestre

Só para pontuar, apresento aqui a forma como entendemos, no SwáSthya o conceito de Mestre:

O Mestre de Yôga não é um guia espiritual.

Mestre é o profissional que conhece profundamente uma arte ou técnica, o bastante para instruir e/ou supervisionar outros especialistas.

Exatamente como o é o chamado Mestre de Obras, o Mestre Cuca, o Mestre de Jangada, o Mestre de Capoeira.

Todos pessoas singelas, mas cuja autoridade não se questiona.

DeRose, portanto, é o meu Mestre, neste sentido.

É o meu supervisor, o professor que escolhi como referência em Yôga, pela sua excelência neste quesito.

O profissional a quem devo meus conhecimentos nesta filosofia milenar que é o Yôga.

A quem devo meu sincero agradecimento, tanto como praticante quanto como instrutora, pelos conhecimentos transmitidos e pelo exemplo de profissionalismo nesta área de conhecimento.

25/10/2008   1 comentário

Para nós, instrutores de SwáSthya Yôga…

Uma interessante reflexão sobre as nossas próprias atitudes enquanto instrutores, levando em conta nosso papel de reeducadores comportamentais, que somos, em tempo integral.

Feita pelo meu grande amigo, colega, e referência em muitas áreas, Instr. Marco Carvalho.

Leia aqui: Fases de Desenvolvimento de um Instrutor de Yôga

3/10/2008   1 comentário